"Sou um livro. Um
livro com uma história para encantar pessoas de todas as idades, mas apenas
você poderá dizer se sou bom ou ruim.
Bom, conheço uma
pessoa que me acha muito bom, tão bom que vivo na estante dela há quase quinze
anos e às vezes ela ainda passa por mim, me abre, folheia minhas páginas
amareladas pelo tempo.
Não. Infelizmente
não fui o primeiro livro que ela leu, tampouco o primeiro que possuiu. Desde
muito cedo ela gostava de livros. Ela, uma menininha ainda, olhava maravilhada
para a estante de livros da mãe. Lá em cima, onde ela não alcançava, havia uma
cidade regida por Códigos Civis e Direitos Penais.
Na prateleira do
meio, uma coleção de livros brancos escritos em vermelho trazia todo universo
de Jorge Amado. Dentre eles, um chamava a sua atenção: Dona Flor e Seus Dois
Maridos. Era o mesmo título daquele filme onde um homem que morreu aparecia
pelado para a sua viúva recentemente casada com outro. Interessada, ela
folheava esse livro procurando Dona Flor, Vadinho e o farmacêutico, mas não os
via.
Mas, o mais
interessante era a prateleira de baixo, onde moravam os mistérios de Ágata
Christ, seguidos dos livros de receitas. Esses últimos eram bonitos, tinham
figuras e era com eles que ela brincava, fingindo ser dona de casa e preparando
os mais deliciosos pratos. Uma coisa interessante para se lembrar, afinal, hoje
ela detesta cozinhar.
Aos cinco anos, ela
ganhou de seu tio uma coleção de livrinhos, menores do que uma folha de
linguagem. Eles tinham figuras e dizeres que pareciam música (que hoje ela sabe
que são rimas.).
Pronto... Foi aí
que tudo começou. Ela andava para cima e para baixo com eles pedindo para a
mamãe recitar: “Na hora do banho o bebê lava o patinho...”. E era exatamente
isso que a figura dizia, com o fundo vermelho e um grande patinho amarelo e
molhado bem no centro. Logo ela também já estava recitando: “Na banheira cheia
de espuma, mas ele não se enxuga...”. Estranho, pois ela ainda nem estava na
escola.
Depois disto vieram
os gibis da Turma da Mônica, O Clássico Disney, mas o primeiro livro que ela
leu na escola, com 8 anos, foi A Gargalhada do Jacaré. Era um livro meio
sem sentido para ela, com muitos acontecimentos, o que o tornava meio confuso.
Ainda bem que ela não se deixou abalar.
No ano seguinte ela
conheceu O Menino Maluquinho, com seus pés de vento, seu olho maior do
que a barriga e macaquinhos no sótão, “embora nem soubesse o que eram
macaquinhos no sótão”.
No mesmo ano ela
conheceu Uma Rua Como Aquela. Um livro compriiiiiiiiiiiiido, sem muitos
acontecimentos, paradinho. Com muito esforço ela chegou até o final. Mais um
desafio vencido!
Isso foi bom para
deixá-la preparada para mim. Cheguei e ela já estava na 4ª série.
Ela me olhou, me
virou, folheou e me deixou de lado meio que desacreditada. Talvez pelo meu
número de páginas (sou meio comprido), ou pelo nome do autor francês Maurice
Druon. Ah... Já sei! Foi o título sem muito atrativo: O Menino do Dedo Verde.
Sim... O que tem demais em um menino de dedo verde?
Incentivada pela
professora, ela logo descobriu e chegou rapidinho ao último capítulo que leu e
releu devagarzinho, tentando adiar ao máximo o fim do livro.
Daí vi chegar ao
meu lado uma porção de coleções como Vaga-Lume, Veredas, Vôo Livre que reuniram
Marcos Rey, Pedro Bandeira, Márcia Kupstas entre tantos títulos como O
Enigma da Televisão, Agora Estou Sozinha, Revolução em Mim.
Foi A Marca de
uma Lágrima de Pedro Bandeira que a incentivou a escrever seus primeiros
poemas:
“Há
um menino abandonado
que
dorme sob a lua:
-
Não se preocupe, meu menino
que
a noite é toda sua."
Neide Lúcia e Maria
Célia foram as professoras que a incentivaram muito a escrever poemas e
redações e a viajar nas páginas de livros diversos.
Quão grande foi
minha alegria ao ouvi-la dizer na 8ª série:
- Vou ser professora
de Português!
E saiu atrás de
Magistério. E saiu atrás de Faculdade de Letras.
Ih... Nessa época
foi difícil. Tantos livros interessantes e tão pouco tempo para estar com eles.
Claro que havia aqueles que ela não fazia questão como Crônica de uma Casa
Assassinada, Fogo Morto e Riacho Doce (ela detesta José Lins
do Rego).
Mas havia
aqueles... Ah... Aqueles como Capitães da Areia.
Pedro Bandeira e
Márcia Kupstas estavam cedendo suas cadeiras para A Estrela da Vida Inteira
de Manuel Bandeira e a Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres de
Clarice Lispector.
João Cabral de Melo
Neto veio depois se apresentando:
- “O meu nome é
Severino, não tenho outro de pia...”.
Vinha de braços
dados com Carlos Drummond de Andrade cheio de Sentimentos do Mundo.
Chegaram muito educadamente, desvencilhando-se das ironias de Machado de Assis,
tapando os ouvidos para as intimidades de Bocage e se descontraindo com a
dúvida de Cecília Meireles:
- Ou Isto? Ou
Aquilo?
Anne Rice veio
depois da faculdade com suas crônicas vampirescas e O Servo dos Ossos
que está difícil de terminar. Isso porque ela arrumou A História Sem Fim
de Michael Ende. Acho que esse Servo dos Ossos vai ter que esperar mais um
pouquinho.
São com estes
ilustres que divido a prateleira. Não fui o primeiro a ser lido ou possuído,
mas fui o primeiro a mostrar a ela que livros não têm autores ou número de
páginas. Livros têm vida, têm imaginação e guardam um mundo de fantasia para
compartilhar com aqueles que ousam abri-los."
by Patrícia Augusto Carlos