sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Memórias de Um Livro


"Sou um livro. Um livro com uma história para encantar pessoas de todas as idades, mas apenas você poderá dizer se sou bom ou ruim.
Bom, conheço uma pessoa que me acha muito bom, tão bom que vivo na estante dela há quase quinze anos e às vezes ela ainda passa por mim, me abre, folheia minhas páginas amareladas pelo tempo.
Não. Infelizmente não fui o primeiro livro que ela leu, tampouco o primeiro que possuiu. Desde muito cedo ela gostava de livros. Ela, uma menininha ainda, olhava maravilhada para a estante de livros da mãe. Lá em cima, onde ela não alcançava, havia uma cidade regida por Códigos Civis e Direitos Penais.
Na prateleira do meio, uma coleção de livros brancos escritos em vermelho trazia todo universo de Jorge Amado. Dentre eles, um chamava a sua atenção: Dona Flor e Seus Dois Maridos. Era o mesmo título daquele filme onde um homem que morreu aparecia pelado para a sua viúva recentemente casada com outro. Interessada, ela folheava esse livro procurando Dona Flor, Vadinho e o farmacêutico, mas não os via.
Mas, o mais interessante era a prateleira de baixo, onde moravam os mistérios de Ágata Christ, seguidos dos livros de receitas. Esses últimos eram bonitos, tinham figuras e era com eles que ela brincava, fingindo ser dona de casa e preparando os mais deliciosos pratos. Uma coisa interessante para se lembrar, afinal, hoje ela detesta cozinhar.
Aos cinco anos, ela ganhou de seu tio uma coleção de livrinhos, menores do que uma folha de linguagem. Eles tinham figuras e dizeres que pareciam música (que hoje ela sabe que são rimas.).
Pronto... Foi aí que tudo começou. Ela andava para cima e para baixo com eles pedindo para a mamãe recitar: “Na hora do banho o bebê lava o patinho...”. E era exatamente isso que a figura dizia, com o fundo vermelho e um grande patinho amarelo e molhado bem no centro. Logo ela também já estava recitando: “Na banheira cheia de espuma, mas ele não se enxuga...”. Estranho, pois ela ainda nem estava na escola.
Depois disto vieram os gibis da Turma da Mônica, O Clássico Disney, mas o primeiro livro que ela leu na escola, com 8 anos, foi A Gargalhada do Jacaré. Era um livro meio sem sentido para ela, com muitos acontecimentos, o que o tornava meio confuso. Ainda bem que ela não se deixou abalar.
No ano seguinte ela conheceu O Menino Maluquinho, com seus pés de vento, seu olho maior do que a barriga e macaquinhos no sótão, “embora nem soubesse o que eram macaquinhos no sótão”.
No mesmo ano ela conheceu Uma Rua Como Aquela. Um livro compriiiiiiiiiiiiido, sem muitos acontecimentos, paradinho. Com muito esforço ela chegou até o final. Mais um desafio vencido!
Isso foi bom para deixá-la preparada para mim. Cheguei e ela já estava na 4ª série.
Ela me olhou, me virou, folheou e me deixou de lado meio que desacreditada. Talvez pelo meu número de páginas (sou meio comprido), ou pelo nome do autor francês Maurice Druon. Ah... Já sei! Foi o título sem muito atrativo: O Menino do Dedo Verde. Sim... O que tem demais em um menino de dedo verde?
Incentivada pela professora, ela logo descobriu e chegou rapidinho ao último capítulo que leu e releu devagarzinho, tentando adiar ao máximo o fim do livro.
Daí vi chegar ao meu lado uma porção de coleções como Vaga-Lume, Veredas, Vôo Livre que reuniram Marcos Rey, Pedro Bandeira, Márcia Kupstas entre tantos títulos como O Enigma da Televisão, Agora Estou Sozinha, Revolução em Mim.
Foi A Marca de uma Lágrima de Pedro Bandeira que a incentivou a escrever seus primeiros poemas:
“Há um menino abandonado
que dorme sob a lua:
- Não se preocupe, meu menino
que a noite é toda sua."
Neide Lúcia e Maria Célia foram as professoras que a incentivaram muito a escrever poemas e redações e a viajar nas páginas de livros diversos.
Quão grande foi minha alegria ao ouvi-la dizer na 8ª série:
- Vou ser professora de Português!
E saiu atrás de Magistério. E saiu atrás de Faculdade de Letras.
Ih... Nessa época foi difícil. Tantos livros interessantes e tão pouco tempo para estar com eles. Claro que havia aqueles que ela não fazia questão como Crônica de uma Casa Assassinada, Fogo Morto e Riacho Doce (ela detesta José Lins do Rego).
Mas havia aqueles... Ah... Aqueles como Capitães da Areia.
Pedro Bandeira e Márcia Kupstas estavam cedendo suas cadeiras para A Estrela da Vida Inteira de Manuel Bandeira e a Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres de Clarice Lispector.
João Cabral de Melo Neto veio depois se apresentando:
- “O meu nome é Severino, não tenho outro de pia...”.
Vinha de braços dados com Carlos Drummond de Andrade cheio de Sentimentos do Mundo. Chegaram muito educadamente, desvencilhando-se das ironias de Machado de Assis, tapando os ouvidos para as intimidades de Bocage e se descontraindo com a dúvida de Cecília Meireles:
- Ou Isto? Ou Aquilo?
Anne Rice veio depois da faculdade com suas crônicas vampirescas e O Servo dos Ossos que está difícil de terminar. Isso porque ela arrumou A História Sem Fim de Michael Ende. Acho que esse Servo dos Ossos vai ter que esperar mais um pouquinho.
São com estes ilustres que divido a prateleira. Não fui o primeiro a ser lido ou possuído, mas fui o primeiro a mostrar a ela que livros não têm autores ou número de páginas. Livros têm vida, têm imaginação e guardam um mundo de fantasia para compartilhar com aqueles que ousam abri-los."

by Patrícia Augusto Carlos

Um comentário:

  1. Olá Patricia!

    Caso você e seu grupo continuarem a postar relatos assim tão fascinantes em relação ao universo da leitura e escrita, com certeza, "voltarei sempre"!kkk

    ResponderExcluir