segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Mais uma crônica




A falta que faz o café
            Aquilo não era verdade. Só acontecia em filmes. Aquele formigamento no braço esquerdo era seu coração? A língua estava crescendo, mas sua boca ficava seca! Ai, ai... Era um trote, claro, Zé Roberto, do 92 adorava pregar peças. O que era aquilo na sua porta? Quem tocou a campainha? Cutucou aquilo com o dedão do pé: gelado!Um cadáver, mas... Como sua mulher não o tinha visto? Quem tocou a campainha???
            Naquela segunda, ele não imaginava o que o esperava. Ele detestava acordar cedo, era daquele tipo lento pela manhã e aquela era uma segunda-feira normal, dia que a Dona Patroa saía mais cedo para o escritório, então ele aproveitava a casa só para si para cochilar mais um pouquinho.
            Mas, infelizmente a soneca tinha que acabar e ele se içou da cama, todo desconjuntado, onde estaria o chinelo? Arrastou-se ao banheiro, mudou de ideia e foi direto para a cozinha, onde colocou a chaleira para ferver a água. Preparou o bule, onde estava mesmo o pó de café? Sentou-se na banqueta, coçou o queixo, hoje faria a barba, com certeza, mas depois do café, antes não, antes, nada.
            Só que o som da campainha o tirou das suas reflexões, um som irritante... Pemmm! Pemmm!
            - Já estou indo, vai tirar o pai da forca, vai? É você, querida, esqueceu a chave?
            Ele se atrapalhou um pouco, nem usou o olho mágico para saber quem era, de manhã, a segurança não era prioridade, nada era. Abriu a porta e já foi reclamando:
            - Depois sou eu que me esqueço de tudo, né? O que foi... Arghhhhhh!
            Não tinha ninguém no corredor, quer dizer, tinha, mas estava estirado no chão, parecia... Parecia... Um corpo! Foi então que ele entrou em pânico, começou a suar frio e sentiu o pulso acelerado. Tinha que ligar para o resgate, qual era o número, cadê o celular? Ah, mas será que estava morto ou era uma peça do Zé? Melhor verificar primeiro.
            Abaixou-se com dificuldades, afinal, flexibilidade não era o seu forte, nem de manhã, nem hora nenhuma. Tocou de leve o corpo, gelado mesmo. Respirou fundo e olhou para o rosto, mas não viu nada porque seus olhos estavam fechados, fechadíssimos.
            -Vamos homem, encare a fera. É o Zé, com certeza e vai gritar para te dar um susto. Vai arrebentar o meu aneurisma, isso sim. Coragem.
            Primeiro abriu um olho, depois o outro e então arregalou os dois: o homem estirado no corredor era ele mesmo!
            Ai, ai, ai... Como ele estava se vendo? Ele fora um bom menino, bagunceiro pra caramba, notas fracas, mas foi bom. Era um bom homem, um marido mais ou menos legal, um empregado mais ou menos. É, ele era mais ou menos em tudo, caramba. Mas se ver ali, o que era aquele apito? Era a ambulância chegando? E aquela luz? E o apito estava cada vez mais forte, que barulho chato! A luz foi aumentando também...
            Epa! Quase caiu da banqueta, a luz era o sol batendo em seu rosto, o apito era o som da chaleira. Ai bom Deus, ele estava vivo, mas quis ter certeza e foi até a porta, abriu com medo, mas a abriu: nada.
            Voltou à cozinha e preparou seu café. Tomou a maior xícara que encontrou, tornou a enchê-la e foi direto para o banho. Que falta faz um café! Que bom estar vivo. Dona patroa hoje teria uma surpresa, ia levá-la para um jantar. Chega de ser um homem mais ou menos. Ah, e mais café, claro, sempre.


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