A
falta que faz o café
Aquilo
não era verdade. Só acontecia em filmes. Aquele formigamento no braço esquerdo
era seu coração? A língua estava crescendo, mas sua boca ficava seca! Ai, ai...
Era um trote, claro, Zé Roberto, do 92 adorava pregar peças. O que era aquilo
na sua porta? Quem tocou a campainha? Cutucou aquilo com o dedão do pé:
gelado!Um cadáver, mas... Como sua mulher não o tinha visto? Quem tocou a
campainha???
Naquela segunda, ele não imaginava o
que o esperava. Ele detestava acordar cedo, era daquele tipo lento pela manhã e
aquela era uma segunda-feira normal, dia que a Dona Patroa saía mais cedo para
o escritório, então ele aproveitava a casa só para si para cochilar mais um
pouquinho.
Mas, infelizmente a soneca tinha que
acabar e ele se içou da cama, todo desconjuntado, onde estaria o chinelo?
Arrastou-se ao banheiro, mudou de ideia e foi direto para a cozinha, onde
colocou a chaleira para ferver a água. Preparou o bule, onde estava mesmo o pó
de café? Sentou-se na banqueta, coçou o queixo, hoje faria a barba, com
certeza, mas depois do café, antes não, antes, nada.
Só que o som da campainha o tirou
das suas reflexões, um som irritante... Pemmm! Pemmm!
- Já estou indo, vai tirar o pai da
forca, vai? É você, querida, esqueceu a chave?
Ele se atrapalhou um pouco, nem usou
o olho mágico para saber quem era, de manhã, a segurança não era prioridade,
nada era. Abriu a porta e já foi reclamando:
- Depois sou eu que me esqueço de
tudo, né? O que foi... Arghhhhhh!
Não tinha ninguém no corredor, quer
dizer, tinha, mas estava estirado no chão, parecia... Parecia... Um corpo! Foi
então que ele entrou em pânico, começou a suar frio e sentiu o pulso acelerado.
Tinha que ligar para o resgate, qual era o número, cadê o celular? Ah, mas será
que estava morto ou era uma peça do Zé? Melhor verificar primeiro.
Abaixou-se com dificuldades, afinal,
flexibilidade não era o seu forte, nem de manhã, nem hora nenhuma. Tocou de
leve o corpo, gelado mesmo. Respirou fundo e olhou para o rosto, mas não viu
nada porque seus olhos estavam fechados, fechadíssimos.
-Vamos homem, encare a fera. É o Zé,
com certeza e vai gritar para te dar um susto. Vai arrebentar o meu aneurisma,
isso sim. Coragem.
Primeiro abriu um olho, depois o
outro e então arregalou os dois: o homem estirado no corredor era ele mesmo!
Ai, ai, ai... Como ele estava se
vendo? Ele fora um bom menino, bagunceiro pra caramba, notas fracas, mas foi
bom. Era um bom homem, um marido mais ou menos legal, um empregado mais ou
menos. É, ele era mais ou menos em tudo, caramba. Mas se ver ali, o que era
aquele apito? Era a ambulância chegando? E aquela luz? E o apito estava cada
vez mais forte, que barulho chato! A luz foi aumentando também...
Epa! Quase caiu da banqueta, a luz
era o sol batendo em seu rosto, o apito era o som da chaleira. Ai bom Deus, ele
estava vivo, mas quis ter certeza e foi até a porta, abriu com medo, mas a
abriu: nada.
Voltou à cozinha e preparou seu
café. Tomou a maior xícara que encontrou, tornou a enchê-la e foi direto para o
banho. Que falta faz um café! Que bom estar vivo. Dona patroa hoje teria uma
surpresa, ia levá-la para um jantar. Chega de ser um homem mais ou menos. Ah, e
mais café, claro, sempre.
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