sábado, 3 de novembro de 2012

Crônica: Entrega por engano


Entrega por engano
O acontecido se deu em outubro, naquela semana em que o calor bateu record de alta de temperatura. Só os abonados que possuem ar condicionado e condições para pagar a conta de energia elétrica, que está pela hora da morte, é que conseguiram dormir bem. Esse não era o caso de Júlio.                                                                                                                                                                                                                     Depois de tanto rolar na cama e não conseguir dormir, abriu os olhos e consultou a hora, poderia ficar mais tempo ali, mas o calor não deixava.          Tratou de tomar um banho gelado para se refrescar, escovou os dentes, fez a barba e quando estava quase pronto ouviu o barulho da campainha.     -Brincadeira, já vem aquela velha da dona Zefinha pedir o ventilador emprestado- falou ele.                                                                                        Deu um grito de já vou, mas não se esforçou nem um pouco pra cumprir. Aquela velha estranha se achava no direito de usar o seu ventilador, só porque ele não ficava em casa durante o dia. A vizinhança toda fazia os gostos dela, em respeito à idade, ele a queria bem longe. Ouviu falar que ela era uma senhora que já foi bem de situação financeira, depois que seu marido foi embora, ficou na miséria, não tinha sequer um ventilador.                  -Chega de enrolar, vamos lá enfrentar a velha- pensou ele. Caminhou mais devagar ainda do que se arrumou, destrancou a porta já fazendo aquela cara de péssimo humor, viu que não havia ninguém.                                                                                                                                                     - Que sorte, aquela mala foi embora!- falou em voz alta.                                                                                                                                           Fechou a porta e quando estava indo à cozinha fazer o café, a campainha tocou novamente.                                                                                       Com a cara mais amarrada ainda e temendo que a velha tivesse ouvido seu resmungo, foi à porta.                                                                                Dessa vez procurou melhor para não fazer papel de bobo, mas para seu alívio aparente, não era dona Zefinha. Era uma coisa comprida, enrolada num lençol, procurou alguém que explicasse o que era aquilo e se realmente era para ele, pois o que esperava de entrega da compra que fez pela internet, era de uma camiseta do Palmeiras.                                                                                                                                                                Encostou na encomenda, estava frio e rígido. Abaixou-se para consultar o produto. Quando abriu um pedaço do lençol, quase caiu de costas, era um defunto, mortinho e durinho da Silva. Seu corpo não obedecia o comando de levantar-se, quase não conseguiu. Numa carreira danada, entrou em casa, ligou para a polícia explicando por alto o que havia acontecido, assim como em seu trabalho, avisando que teve um contratempo e que chegaria mais tarde.                                                                                                                                                                                                   Quando a polícia chegou e foi averiguar o cadáver, encontrou um bilhete com a inscrição de que aquilo era a entrega que já deveria ter sido feita antes e que aquele mafioso já ia tarde. Cada vez mais sem entender o que estava acontecendo e mais pressionado pela polícia, viu que dona Zefinha se aproximava.                                                                                                                                                                                                           -Era só o que me faltava, além de folgada é fofoqueira- disse Júlio em voz alta, não tinha mais o que perder naquele dia.                                            Dona Zefinha se aproximou das pessoas que rodeavam a porta da casa de Júlio, se interou do assunto e do bilhete, pediu para dar uma espiadinha no defunto e caiu na risada. Ninguém entendeu nada! Então, ela disse:                                                                                                                       -Seu delegado, houve um engano, essa encomenda era pra mim, esse miserável é o meu marido, sempre metido em confusões e trapaças, até depois da morte dando trabalho para os outros. Pode mandar para o IML que eu pago um enterro pra esse aí.                                                                      Júlio sentiu-se aliviado, o empréstimo do ventilador o havia salvado de uma grande dor de cabeça.

2 comentários:

  1. dito desaprendizagem permanente.

    Provocando a experiência...

    O pé está nu. Pisa com extremo cuidado. Sensível ao tato da crueza dos frios paralelepípedos, caminha atento à fragilidade dos ovos espalhados sobre o solo. Pequenos obstáculos prenhes de vida preenchem o pequeno horizonte da imagem que nos oferece o movimento do caminhar descalço.

    Entrevidas é o nome de uma instalação de Anna Maria Maiolino, originada de uma performance realizada em 1981. Talvez nós, educadores, tenhamos esse mesmo cuidado ao atravessar os obstáculos e cruezas que a vida na escola nos apresenta, ao compartilhar com nossos aprendizes processos educativos em Arte. Talvez seja a nossa condição humana que nos faça percorrer caminhos, escolher percursos, atravessar terrenos pouco amistosos. Mas com que cuidado o fazemos?

    Como nos formamos como seres do cuidado amoroso? Muitas vezes somos ansiosos demais, fazendo perguntas em classe, mas embarcando na resposta do primeiro aluno, sem dar espaço de voz a todos. É difícil dar espaço para a fala dos alunos. É difícil ouvir o que não é tão audível, pois a escuta e o olhar implicam a percepção de corpos vivos, mutáveis, inquietos.

    Com que cuidado provocamos e convocamos o outro para a experiência?

    R> Provocar novas sensações, transitando por lugares inusitados, fazendo-nos a refletir e pensar sobre os caminhos que serão percorridos durante todo o processo.


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  2. A arte não responde. Pergunta.

    "A arte não responde. Pergunta."

    A arte nos dá a ver um ponto de vista privilegiado que não se dá no âmbito do conceito explicativo que vem da solução de problemas armados. Na arte, descobrimos outros domínios pelos quais somos convocados à invenção e levados a perceber o mundo e os seres do mundo com uma sabedoria que não cabe nas equações. Nessa aprendizagem inventiva, atinamos para caminhos emocionais e intuitivos que são também modos de conhecimento.

    Se a arte não responde, pergunta; a experiência com a arte é gerada de uma aprendizagem da interrogação pela sensação, emoção e pela razão reflexiva e sensível que nos leva a criar conceitos não explicativos, mas interrogativos, sobre a vida.
    Para fazer perguntas aos aprendizes, é importante que antes nós mesmos nos deixemos capturar pela obra. Só uma leitura pessoal da imagem pode nos levar a descobrir o que perguntar, como perguntar, a fim de roteirizar uma pauta do olhar: uma listagem das hipóteses de perguntas que possam provocar um diálogo dos alunos com a imagem, com eles próprios sobre a imagem e com o próprio professor. Cuidadoso, o professor procura não transformar essa listagem num roteiro rígido como uma sequência de perguntas tal qual um questionário. Por isso ele é também um leitor das respostas de seus alunos, acompanhando o percurso do olhar que estão fazendo, identificando como eles olham, sentem, pensam e interpretam o que veem na imagem ao mesmo tempo em que vão sendo enriquecidos pela troca de pontos de vista de cada um do grupo.
    Provocar a conversa, assim, não é fixar-se em perguntas que podem se tornar entediantes ou persecutórias, mas perguntas que saibam puxar a prosa, desvelar os saberes e os não-saberes, os conceitos e os pré-conceitos, para que possamos trabalhar sobre eles, alimentá-los, ampliá-los e deixar que a experiência estética se concretize. Como queria Dewey (1949), uma experiência é estética porque a vivemos de forma integral, completa – seja uma experiência intelectual, prática ou artística. “Ação, sentimento e significação são uma só coisa.”

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